Fundo preto nos tomates não é míldio e o spray não vai ajudar, não entre em pânico
Depois de uma vaga de dias tropicais, muitas vezes chega um arrefecimento, algumas chuvadas e tempo instável. Em vez da alegria de ver os frutos a pegar e a amadurecer, ao inspecionar o canteiro ou a estufa, depara-se com algo desagradável: na parte inferior dos tomates surge uma mancha escura, que vai ficando preta e com aspeto coriáceo; o fruto muitas vezes achata nessa zona e parece ter sido atacado por uma doença. A primeira ideia costuma ser aplicar um tratamento contra o míldio, mas esse é precisamente o erro típico. Não se trata de uma doença fúngica, por isso o fungicida não ajuda, apenas sobrecarrega a planta e faz com que você gaste dinheiro sem resultado.
O que está a acontecer de verdade, ou seja, a podridão apical
Este problema é uma desordem fisiológica conhecida como podridão apical. Aparece quando o fruto tem falta de cálcio nos tecidos. O cálcio é fundamental para a firmeza das paredes celulares. Se chegar pouco cálcio ao fruto em desenvolvimento, as células na extremidade mais distante do fruto vão morrendo gradualmente e a zona começa a escurecer até ficar preta.
O importante é que o cálcio pode até estar presente no solo em quantidade adequada. O problema, muitas vezes, não é falta no solo, mas sim o facto de, naquele momento, não conseguir chegar ao fruto.
Porque é que as manchas só apareceram depois do arrefecimento
Muitas vezes parece ilógico: os maiores calores já passaram e, mesmo assim, os problemas mostram-se agora. Isso acontece porque os sintomas aparecem nos frutos com atraso, normalmente 3 a 5 dias depois do momento em que a planta deixou de fornecer cálcio corretamente. O que você vê hoje é, portanto, consequência do stress dos dias anteriores.
O cálcio desloca-se na planta sobretudo com o fluxo de água. Assim que a absorção de água ou o funcionamento das raízes é perturbado, também se interrompe o fornecimento de cálcio aos frutos, que são sensíveis a isso.
Dois gatilhos típicos após um período de calor
O primeiro problema surge quando o substrato em vasos, canteiros elevados ou numa estufa sobreaquecida aquece acima de cerca de 30 °C. As raízes finas (pelos radiculares) passam então a trabalhar pior ou deixam temporariamente de funcionar, e a planta não consegue absorver cálcio de forma eficaz, mesmo que exista o suficiente no solo.
O segundo problema costuma vir logo a seguir ao calor: um substrato seco recebe uma rega pesada de uma só vez, ou é encharcado por uma chuva forte. As raízes sofrem um choque com a passagem rápida de seca para excesso de água. Esta oscilação perturba o fluxo de água na planta e limita ainda mais o transporte de cálcio para os frutos.
Como salvar o resto da colheita sem química desnecessária
Os frutos que já têm manchas pretas e coriáceas não recuperam. O que faz sentido é corrigir rapidamente para que os próximos frutos vingados não sejam afetados. O essencial é aliviar a planta e, o mais depressa possível, restabelecer uma absorção estável de água e cálcio.
Retire os frutos danificados e poupe a energia da planta
Colha o quanto antes os tomates com a base enegrecida. A planta vai continuar a gastar energia neles sem necessidade, mas a qualidade não vai melhorar. Como não é uma doença contagiosa, pode colocá-los no composto sem problema, se isso for o seu hábito.
Forneça cálcio via foliar, é o caminho mais rápido
Depois do stress, a recuperação da absorção pelas raízes pode demorar de dias a semanas. Se quer proteger os frutos pequenos, ainda em formação, ajuda fazer uma adubação foliar com cálcio. Usa-se, por exemplo, nitrato de cálcio ou produtos especializados em forma quelatada. Aplique a pulverização de manhã cedo ou ao fim da tarde, quando não há sol forte e a planta absorve melhor. Pela folha, o cálcio é absorvido em poucas horas, dando aos frutos jovens a oportunidade de ultrapassar o problema.
Mantenha a humidade uniforme e acrescente cobertura morta

Com tempo instável, os tomates não precisam de ficar constantemente encharcados, mas não toleram grandes oscilações. Regue de preferência mais vezes, em pequenas quantidades, para que o solo fique ligeiramente e de forma estável húmido. Ajuda muito também uma cobertura morta à volta das plantas, por exemplo palha ou relva cortada já murcha e bem seca. A cobertura reduz a evaporação, protege o solo do sobreaquecimento e amortece os choques nas próximas mudanças de tempo.
Por algum tempo, reduza azoto e potássio, podem “roubar” o cálcio
Se nesta fase estiver a adubar com misturas ricas em azoto ou potássio, pode estar, sem querer, a criar condições para mais frutos escurecerem. O azoto promove um crescimento vigoroso de folhas novas, que passam a consumir o cálcio disponível com prioridade, e os frutos ficam em segundo plano. Por isso, abrande por algum tempo com esses adubos e foque-se numa rega estável e no fornecimento direcionado de cálcio.
O que levar desta informação para os próximos dias
O escurecimento da ponta dos tomates parece dramático, mas na maioria dos casos não é míldio. É um sinal de que a planta não lidou bem com o stress do calor e com a rega excessiva repentina ou a chuva forte que se seguiu, e os frutos sofreram por curto período com falta de cálcio. Se retirar os frutos danificados, estabilizar a rega, aplicar cobertura morta e fornecer cálcio também por via foliar, pode ainda salvar uma grande parte da colheita com tranquilidade.
Fonte: GrowVeg, Urob si sám, Pestrazahrada.cz
Amante da natureza, do jardim e de tudo o que se move, floresce ou cresce. Cultiva literalmente tudo, de ervas aromáticas a espécies raras, e gosta igualmente de cuidar de animais. No seu trabalho, combina tecnologias modernas com métodos tradicionais testados pelas avós e fica feliz quando ambos os caminhos levam ao mesmo objetivo.
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