Calor extremo ameaça a produção de legumes na horta
Quando no verão se repetem os alertas de temperaturas extremas, a maioria dos horticultores pensa sobretudo na rega. Só que, nas hortícolas de fruto, muitas vezes manda ainda algo mais importante: o pólen. Sem pólen viável não há fecundação, as flores caem e, em vez de colheita, fica-lhe apenas muita rama. Por fora a planta pode parecer saudável, mas dentro das flores, com o calor, acontece um problema que não se vê à primeira vista.
O que acontece dentro da flor quando a temperatura é demasiado alta
As hortícolas foram, ao longo de gerações, selecionadas para um determinado intervalo de temperaturas. Assim que, de forma prolongada, saem desse intervalo, a planta começa a poupar energia e a parte mais sensível são precisamente as flores em desenvolvimento. O calor extremo pode danificar os grãos de pólen ou destruí-los por completo ainda antes da flor abrir, tornando a flor inviável desde o início. E mesmo quando o pólen é libertado, com temperaturas elevadas persistentes muitas vezes não germina no estigma, pelo que a fecundação não acontece e as flores e os pequenos frutos acabam por cair.
Complica ainda a combinação de calor e humidade elevada. O pólen, em vez de ser um pó fino, aglomera-se numa massa pegajosa que os polinizadores têm mais dificuldade em transportar. E, por fim, temperaturas extremas podem deformar as próprias flores durante o crescimento, levando a planta a livrar-se delas antes de atingirem a fase de polinização.
Quando o calor já é arriscado e porque as noites são importantes
Um dia quente ocasional, em regra, não provoca desastre. Os problemas começam quando as temperaturas se mantêm elevadas de forma contínua. O crescimento e a frutificação podem abrandar já acima de cerca de 29 °C, mas o risco real de pólen estéril surge em períodos em que, durante o dia, as temperaturas se mantêm perto de 35 °C ou mais por uma semana ou mais.
As temperaturas noturnas têm um papel decisivo. As plantas muitas vezes conseguem recuperar se à noite arrefecer bem. Mas quando as noites continuam quentes, aproximadamente a partir de 24 °C, a probabilidade de dano no pólen aumenta drasticamente e o problema pode prolongar-se mesmo depois de o calor diurno aliviar por algum tempo.
Que hortícolas são mais frequentemente afetadas
Pimentos
Os pimenteiros toleram relativamente bem o calor e, muitas vezes, mantêm flores e frutos por mais tempo do que outras culturas. Os problemas surgem tipicamente apenas em dias muito quentes, acima de cerca de 35 °C, sobretudo quando isso se repete durante vários dias seguidos. Ainda assim, o indicador mais fiável volta a ser vigiar as noites quentes.
Tomateiros
Os tomateiros tendem a ser mais sensíveis ao calor e reagem mais depressa. Mesmo com temperaturas apenas ligeiramente acima do normal de verão, podem deixar cair flores afetadas pelo calor. O resultado é típico: a planta está grande, cheia de flores, mas tem pouquíssimos frutos, porque o pólen não conseguiu fazer o seu trabalho.
Beringelas
A beringeleira, sendo outra solanácea, reage muitas vezes de forma semelhante. Quando as máximas diurnas se aproximam dos 30 °C e acima e o calor se mantém por mais tempo, pode largar flores e até pequenos frutos recém-formados.
Feijoeiros
Os feijoeiros parecem resistentes e normalmente aguentam um calor curto, mas numa onda de calor realmente forte podem abortar as flores como acontece noutras espécies. Quando as temperaturas se mantêm por muito tempo perto de 35 °C e acima, a formação de vagens abranda ou para.
Abóboras e curgetes
Nas cucurbitáceas o mecanismo é um pouco diferente. As flores abrem por pouco tempo e o pólen tem de se manter utilizável no momento certo. As flores mantêm naturalmente um microclima ligeiramente húmido no interior para o pólen não secar. Porém, calor extremo combinado com seca pode desidratar o pólen ainda antes da flor abrir e, mesmo com polinizadores presentes, o sucesso é baixo.

Como ajudar a horta a produzir mesmo durante o calor
Cobertura do solo como primeira linha de defesa
A cobertura do solo reduz bastante a evaporação, por isso a terra não seca tão depressa e as raízes sofrem menos com o sobreaquecimento. Isto é fundamental, porque uma zona radicular demasiado quente aumenta o stress e a planta deixa cair as flores com mais facilidade. A cobertura também protege a estrutura do solo, que num canteiro descoberto, com calor, endurece, forma crosta e passa a absorver pior a água. Se já tem cobertura, vale a pena verificar se a camada ainda está suficientemente espessa, porque com o tempo assenta e decompõe-se.
Nesta fase, evite podas fortes
Em períodos de temperaturas extremas não é aconselhável despontar muito nem fazer podas radicais. Qualquer intervenção destas é mais um stress e, além disso, remove folhas que sombreiam os frutos e o solo e ajudam a planta a regular as perdas de água. Ter boa folhagem no calor pode ser a diferença entre segurar as flores ou perdê-las.
Regar bem, mas o que conta é controlar o solo
Uma rega abundante é correta, mas a recomendação universal de regar poucas vezes pode ser prejudicial no calor, sobretudo em canteiros elevados ou em solos leves, onde a água escoa rapidamente. O mais prático é verificar a humidade diariamente: afastar a cobertura, observar a cor do solo e enfiar o dedo mais fundo. Se já estiver seco a alguns centímetros abaixo da superfície, é altura de regar de novo, até de dois em dois dias ou diariamente, conforme as condições.
Colher com regularidade mantém a planta em produção
A planta procura completar a reprodução. Quando deixa alguns frutos amadurecerem totalmente, recebe o sinal de que já cumpriu a tarefa e pode reduzir a formação de novos. Por isso, faz sentido colher com frequência, sobretudo durante o calor, quando cada nova frutificação é mais exigente. No caso dos tomateiros e pimenteiros, além disso, assim que os frutos atingem o tamanho final podem continuar a amadurecer fora da planta, pelo que não é necessário deixá-los no pé até ganharem a cor total.
A ajuda mais eficaz é, surpreendentemente, simples: sombreamento
Uma das melhores ferramentas é a rede de sombreamento. Trata-se de um tecido respirável que reduz parte da radiação solar e, assim, diminui o stress térmico das plantas e do solo. Para hortícolas de fruto, costuma resultar bem um sombreamento na ordem dos 30 a 40%, enquanto uma sombra mais forte é mais indicada para espécies claramente de clima fresco.
O sombreamento é especialmente útil em episódios de calor mais longos, tipicamente quando a onda de calor dura mais do que alguns dias seguidos. Assim que refrescar, convém retirar o tecido para que as plantas voltem a ter luz suficiente para crescer e frutificar. É importante também não colocar a rede diretamente sobre as plantas. Com vento, pode partir rebentos, bater nos frutos e o coberto pode entranhar-se na rede. Melhor é uma estrutura simples sobre a qual a rede seja estendida.
Mesmo num verão quente, é possível colher se der uma oportunidade ao pólen
As ondas de calor conseguem transformar uma horta promissora num cenário verde sem colheita, mas na maioria das vezes não é uma situação irreversível. Se mantiver o solo mais fresco e húmido, não enfraquecer as plantas com podas desnecessárias, regar com critério, colher regularmente e, em períodos longos de calor, acrescentar sombra, aumenta muito a probabilidade de as flores não ficarem “vazias” e de as hortícolas continuarem a formar frutos mesmo com tempo exigente.
Fonte: Rural Sprout, The Spruce, GrowingVeg, Pestrazahrada.cz
Amante da natureza, do jardim e de tudo o que se move, floresce ou cresce. Cultiva literalmente tudo, de ervas aromáticas a espécies raras, e gosta igualmente de cuidar de animais. No seu trabalho, combina tecnologias modernas com métodos tradicionais testados pelas avós e fica feliz quando ambos os caminhos levam ao mesmo objetivo.
Artigos relacionados
Percevejos fedorentos atacam os tomates e destroem a colheita. Livre-se deles antes que seja tarde
Os percevejos fedorentos têm aumentado nas hortas e podem deformar frutos, estragar o sabor e reduzir a produção. Veja como prevenir a entrada em casa e controlar a praga no jardim com métodos práticos e mais suaves.
O que fazer em julho no pomar para garantir a colheita e as reservas de inverno
Julho é o mês em que a colheita se cruza com os cuidados que preparam a próxima época. Aprenda a congelar corretamente pequenos frutos, a renovar o morangal após a apanha e a reagir a problemas comuns nas prunóideas.
Colher fruta no jardim tem regras e pode dar multas elevadas
A fruta pertence ao dono do terreno onde está o tronco, mas o que cai do outro lado do muro pode passar a ser do vizinho. Colher frutos ainda presos aos ramos sem autorização pode ser entendido como infração e resultar em multa.
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar.